segunda-feira, 1 de maio de 2017

Tudo termina em cinzas

Subi os 12 andares com uma decisão, tinha certeza que aquilo era o melhor a se fazer. Ainda mais pelas circunstâncias que se mostraram favoráveis a isso. Eu não acreditava que a vida tomaria esse rumo. Confesso que preferia que não fosse assim. Na verdade, achei que o caminho seria mais próspero, verdadeiro e intenso.

Mas não foi.

Ao chegar ao terraço do prédio, passei as mãos no reboco áspero daquela construção mal acabada. Do alto, enxerguei toda a cidade, milhares de pessoas levando sua vidinha vazia e sem sentido. Andei em direção ao centro do terraço, o vento sussurrava em meu ouvido. Uma voz que não ouvia há muito, tomou conta da minha cabeça.

- Tem certeza?

Não respondi. Mas sim, eu tinha. Sentei, acendi um cigarro, o gosto amargo tomou conta da minha boca, me lembrei de muita coisa. Bons momentos. Mas aquilo não superava o que tinha acontecido. Mas sabia que era o final. O último capítulo. Abri minha bolsa e puxei um caderno, um lápis e uma caixa.

Desenhei aquele sorriso melancólico que por um tempo foi a razão de acordar. Lembrei daquele nascer do Sol e da voz nasalada. Abri uma caixa preta de memórias ocultas, coloquei o papel nela e acendi o isqueiro. Fechei a caixa, uma lágrima escorreu:

- Você não quer fazer isso - a voz disse.

- Eu preciso – retruquei.

Fechei os punhos e andei firme até a sacada. Olhei para o chão, quase interminável. Tive tontura, coloquei a caixa na beirada e empurrei. A cada metro que se afastava, eu sentia uma coisa estranha, como se algo fosse arrancado de dentro de mim.  Ao longe, vi a caixa se espatifar.

Senti uma dor no peito, sentei, encostado na parede da sacada. Chorei desesperado, acendi outro cigarro. Bati o dedo para soltar as cinzas, sorri um pouco amargo, aquela noite tinha acabado em cinzas. 


Abra a mente!



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