terça-feira, 23 de maio de 2017

O caminho das pedras: Machu Pichu


Fazia 36 horas que não comíamos nada além de amendoim e barra de cereal. A boca salivava e as tonturas mesclando fome e os efeitos da altitude se tornavam insuportáveis. Aquela viagem que teve um êxtase inexplicável, de um sonho de infância, transformou-se num verdadeiro inferno. Juan estava mais branco que neve e enojado. Não estava disposto a comer. Aquilo em paralelo a um encontro inacreditável do destino há alguns dias: um taxista em Corumbá, na divisa com a Bolívia, era tio de uma ex-namorada minha e também da ex de Juan.

Encontramos um restaurante extremamente humilde e precário, assim como tudo na Bolívia. A comida parecia mofada e absurdamente estranha. Tudo é frango e macarrão naquele país. Uma mistura de óleo e alguma coisa, praticamente intragável.

- Você precisa comer, mano. Não tem outro jeito.

- Não dá. Eu não consigo – respondeu.

Tudo começou com uma ideia baseada no livro “Campo das Estrelas”, que descobri que o autor faleceu em 2001. Fiquei triste, afinal, ele que motivou a viagem mais marcante da minha vida.  Chegando em Corumbá, tivemos a única noite decente da viagem, comemos igual pedreiros depois do expediente e dormimos bem.

Juan estava cheio de energia e queria atravessar até a fronteira a pé. Quando o convenci que precisamos de táxi, porque andar mais de 30 km em uma cidade desconhecida e longe da lei não era boa ideia. Voltamos com a bolsa com cerca de 20 kgs, o Sol escaldante até chegar ao aeroporto. Tinha cerca de 10 pessoas lá. Dois táxis chegaram, e eles pularam para dentro do veículo, como loucos.

Conversei com a faxineira e ela trouxe a solução: um cartão. Não tínhamos crédito, o dinheiro era contado, e tudo estava planejado na ponta do lápis com pesos bolivianos e dólares. Ela ligou para um taxista ímpar. Quando ele chegou, um rapaz forte, cerca de 45 anos:

- De onde vocês são, guris?

- Somos de Presidente Prudente, interior de São Paulo. Vamos rumo a Machu Pichu.

- Ah, que legal – acendeu um cigarro. – Tenho um parente em Pirapozinho, do lado de Prudente. Meu irmão tinha um puteiro lá, é o único, vocês devem conhecer.

Juan me olhou abismado. Ele era tio da minha ex-namorada, e curiosamente, Juan tinha namorado a irmã dela. Explicamos que somos de Pirapó na verdade, e que ele tinha sido “nosso tio” mesmo sem saber. O sorriso foi de orelha a orelha. Era bom encontrar um “quase conhecido” no fim do mundo. O taxímetro acusou R$ 50,00 e ele cobrou apenas R$ 20,00. A sorte parecia estar ao nosso lado.

Mas era apenas impressão. As viagens de trem são estranhas. Balança como uma rede. E o povo boliviano te olha assustado, com cara de poucos amigos. Suas roupas são imundas e a pele calejada pelo Sol e o tempo. A todo momento, eu pensava que seria assaltado. Junto com Juan, tínhamos cerca de R$ 3 mil reais em dinheiro vivo, espalhado por nossas bolsas. O que faríamos se esse dinheiro fosse roubado?

Enquanto pensava exatamente nisso, olhava em Juan e sabia que no final ele tinha o mesmo medo. Um rapaz entrou correndo no trem, com os braços cheios de doce. Olhou diretamente no meu olho, se aproximou. Vestia uma roupa maltrapilha e tinha poucos dentes. Falou alguma coisa, mais parecido com um grunhido e me ofereceu um pacote de algo parecido com paçoca.

- Beleza – respondi. Abri a carteira, e burramente tinha mais de 500 pesos bolivianos ali, ao lado de outras centenas de dólares. Dei 50 pesos.

Ele sorriu e saiu correndo. Olhei para Juan, que murmurou:

- Fodeu.

Aquela figura estranha voltou pela porta, tinha notado a sua presença, mas resolvi fingir que não. Pegou no meu ombro, olhei de soslaio, me cagando de medo. Ele devolveu o troco.

Foi em um trem que vi a versão extrema de Juan. Logo ele que tinha começado a viagem com todo o gás. Não aguentava sequer se alimentar.  E foi em Cocha Bamba, que tivemos os sentimentos mais extremos. Depois de praticamente obrigar Juan a comer, e ver ele passando mal, pegamos um táxi.

Dois bolivianos com cerca de 1,60 m, bem diferente da média da população, que não passava de 1,60 m, muito parecidos com o “Ursão” do Pica Pau. O taxista levou a gente para uma favela, com muitos destroços. Conversavam em uma língua que não parecia sequer espanhol. Olhavam para o retrovisor e davam risada.

- Agora que vamos morrer – pensei.

Mas no final, não aconteceu nada demais. Talvez estivessem de porre ou algo do tipo. Pegamos o trem e vimos o primeiro penhasco. A noite já beijava o ar montanhoso, e vimos uma coisa quase divina. O luar batia nos carros, que brilhavam feito piscas-piscas, numa mistura de cores difícil de explicar.

Quando se assiste jogos de futebol na televisão, é até engraçado olhar atletas de alto nível reclamando da altitude. Mas em Santa Cruz colocamos isso a prova. Era 3 da manhã, e quando me deitei, não conseguia puxar o ar. O peito parecia estourado. Naquele momento dei graças a deus de nunca ter colocado um cigarro na boca. É impossível dormir.

Mas tudo isso tinha que ser recompensado. E foi.

Ao chegar a Machu Pichu, a entrada é parecida com um parque de diversões. Avista-se logo de cara os paredões judiados pelo tempo. Um caminho rodeado de árvores, a montanha com ar mais puro que se pode respirar. As muralhas mais místicas da América Latina trazem uma paz de espírito inexplicável.

Aqueles 13 dias infernais de viagem valeram cada minuto. A sensação é de outro mundo. Ficamos duas horas ali, mas foram as duas horas mais marcantes da minha vida. Todos os dias antes de dormir, lembro-me de como foi chegar a Machu Pichu, e acima de tudo como a viagem foi difícil, mas é impossível realizar algo sem sangrar.


História inspirada na viagem de Cristian Perrud e Juan Luiz. 


Continue abrindo a mente!



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