segunda-feira, 17 de abril de 2017

Você vai, né?

- Espero de coração que você vá ao meu casamento.

Essas palavras eu ouvi ao chegar do trampo. Cansado depois de um dia movimentado no trabalho, estava me trocando, ouvi o telefone fixo, atendi e ouvi um:

- É da casa do Rodrigo Moreira? – pensei: “Porra, banco de novo enchendo o saco?”.

- Sim, está falando com ele.

- Ro... – teve uma pausa – drigo. Sou eu a Manu.

Fiquei pasmo. Sem reação:

- Manu? Porra, há quanto tempo...

- Sim, é verdade, vou me mudar de casa e comecei a arrumar as coisas. Nela achei o seu Rakani que me deu. Pedi seu número para um conhecido, tentei ligar várias vezes e não consegui, então encontrei na lista telefônica o número da sua casa.

Rakani era um amuleto que dei pra ela há uns 9 ou 10 anos. Quando eu era criança, terminei uma história em quadrinhos. Enviei para uma editora e o resultado não foi muito satisfatório. Recebi uma carta escrito algo do tipo:

“Agradecemos o contato e a força de vontade. Continue tentando, quem sabe um dia não publicamos.”

Joguei a carta e a história fora. Decidi nunca mais desenhar na vida.

- Vi no seu instagram que voltou a desenhar, e agora encontrei isso... Sabe, você era tão sonhador. Queria conversar com você, saber como você está, essas coisas.

- Ah Manu, tô bem, não sei se sabe, mas me formei e estou empregado, vi que você está noiva, né? Fico feliz por você. A vida anda de uma forma ou de outra.

- É verdade... Por tantas vezes eu senti sua falta. Lembro que quando meu pai faleceu, você me levava todos os dias para casa e ficava conversando horas e horas. Não tocava no assunto e sempre me fazia uma surpresa. Você não sabe como foi importante para mim.

- Que isso, você que foi uma menina forte... – resolvi não remoer esse assunto tão delicado - falando nesse símbolo, você ainda lembra o significado?

- Aff, é claro que eu lembro, parece que é besta. – Rakani era um amuleto do clã Jiribi. Todas as vezes que os guerreiros iam a guerra, entregavam um Rakani para sua esposa. E sempre que elas apertavam ele, sentiam a presença do amado.

- Fico feliz que ainda se lembra. Funcionou?

- Na verdade, não muito. – a sua voz continuava sonora e leve como uma música clássica. – Rô, vou ter que terminar a mudança. Sei lá, queria te ligar, a gente se afastou há tanto tempo, mas éramos tão próximos. Eu e meu noivo encontramos uma data para nosso casamento.

Minha voz não saiu. Manu é o amor da minha infância. O primeiro amor. Não sei se sinto algo por ela, mas esses dias estava tão abalado, que uma notícia desta em cima de outra pesada que recebi no dia anterior foi de me estraçalhar.

- Ca... ca... casar?

- Sim. E eu quero muito que você vá.

- Fico tão feliz por você. Você é uma boa pessoa. Vai ser feliz. – respondi.

- Você vai, né?

- Eu não sei, Manu. Realmente não sei.

- Vou te enviar o convite. Vou te esperar, tá? Preciso terminar a mudança. Só queria falar como você foi importante na minha vida.  Me fez muito bem.

Depois dessa ligação, é impossível não fazer essa pergunta: Quando alguém vai me fazer bem?


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