segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A realidade de Ricardo

O clima quente parecia apertar a goela do jovem Ricardo, o ambiente hostil daquele bar lhe trazia algumas recordações de um passado não tão distante. Virou um whisky escocês e lembrou de quando brincava com seu pai há poucos quilômetros dali. Sentiu um cheiro forte de charuto vagabundo, olhou discretamente e observou um rosto conhecido, segurou no cabo do revólver e suspirou.

Um velho, cerca de 55 anos, sentou-se ao seu lado, barba cerrada e olhar enigmático. Pediu um copo de cachaça 51, a mais conhecida dos anos pacíficos daquela que havia se tornado a Nova São Paulo.  Depois da Terceira Guerra Mundial, o país entrou em pânico, os governos se dividiram e tudo parecia um Faroeste sem lei.

- Nunca o vi aqui. É novo, garoto? – o velho surpreendeu.

- Estou de passagem. Vim de Capitania, meu objetivo é chegar a São Paulo até amanhã.

Virou o terceiro copo daquela cachaça, o suficiente para levantar o cheiro de álcool puro, passou a mão no ombro daquele garoto desconhecido e sussurrou:

- Pessoas estranhas nem sempre são bem-vindas.

Plaft. Um barulho de garrafa se quebrando atrás dele.  O velho caiu sem nenhum tipo de reação, o sangue espirrou pelo rosto de Ricardo. Uma voz conhecida voltou a falar com ele:

- Você demorou, era para ter chegado há uma semana. – enquanto observou todos correndo.

- Algumas coisas aconteceram. Não precisava fazer isso com o coitado do João. Até que ele não era dos piores.

O rapaz sorriu, abraçou forte Ricardo, em um gesto familiar, disse em seu ouvido:

- Bom te ver, primo.

Cavalgaram até a fazenda Santa Fé, a maior da região. Tinham um plano um tanto quanto ambicioso, tomar a sede e matar o velho Fernando, que há muito tempo ditava as regras daquela cidade que era dominada pelo sangue.

Ao chegar na antiga porteira da Fazenda, estranharam que não tinha nenhum capataz ou algo do tipo. O caminho estava limpo, continuaram andando até avistar a sede, uma casa grande com uma varanda externa e garagem. Até que saem alguns homens, nenhum conhecido, o único rosto familiar já havia sido abatido.

Matematicamente era difícil. Cinco contra dois, mas o que Ricardo tinha aprendido nos últimos anos era como matar, e de forma rápida e eficaz. Não teve diálogo, atirou cinco vezes, cinco mortes.

Ouvi uma movimentação dentro da casa, até que um disparo alto, um relincho de cavalo, seu primo Marcelo estava morto. Desceu de seu cavalo negro, de peito aberto se aproximou:

- Sempre fácil de ser pego. Esse moleque nunca valeu absolutamente nada, assim como o pai dele.

Ricardo sorriu.  Aquela voz familiar, roca e forte era muito familiar.

- Então você continua matando como se a vida não significasse nada.

- Essa é a vida, meu filho. As pessoas são podres, você deveria saber disso. Tudo que fiz foi por impulso e para defender a minha família.

- A sua defesa gerou a morte de quem eu mais amei. Você é podre.

Aquele fuzil estava na mira daquele jovem de 20 e poucos anos. Um pai mataria um filho a queima roupa?

- O que você quer aqui depois de tantos anos?

- Vim buscar a Vanessa e a Júlia. Elas não devem ficar com você.

Até que surpreendentemente, o velho caiu. Ricardo correu e pulou a janela pela qual ele estava apontando a arma. Vanessa havia derrubado o coronel com um pedaço de madeira. Ricardo a abraçou e perguntou por Julia, e descobriu que ela já tinha ido embora há muito tempo.

Ajudou Vanessa a pegar algumas roupas e selou outro cavalo do estábulo. Quando menos percebeu, foi surpreendido pelo velho. Eles começaram uma briga, mas era muito diferente o contato corpo a corpo de um jovem e um homem em decomposição. Ricardo socou a boca do velho algumas vezes, o suficiente para jorrar sangue por todo aquele rosto calejado.

Em uma reação quase imediata, o jovem puxou uma faca e parou no pescoço do velho coronel. Uma lembrança distante, enquanto ele o empurrava no balanço, e o presente, uma faca personalizada com o sobrenome Del Monte gravado.

- Era um bom tempo, meu filho.

- Vou levar Vanessa, e você faz a porra que você quiser da sua vida.

- Fique aqui e vamos construir uma nova vida.

- Vai pro inferno.

O jovem arremessou a faca no chão e montou no cavalo. Quando virou a costa, se lembrou de olhos negros que lhe atordoam desde a cidade de Capitania, um sorriso encantador que acabou em mais um derramamento de sangue e sonhos. Caiu do cavalo, a vista começou a ficar embaçada, olhou o velho de soslaio.

Sorriu de forma amarga, já não tinha mais forças, sentiu a faca apertando suas entranhas. Em um último gesto, gritou:

- Foda-se, você e sua vida de merda.

Acordou em um tipo de chácara a beira do mar, sentada em uma praça estava sua mãe e o grande amor da sua vida, que por acaso lhe tinham sido tirado. O inferno estava instaurado na Terra, e se a realidade mundana não era o suficiente, ele precisou encontrar a paz em outro plano.


A realidade não era boa o suficiente para Ricardo.  

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