sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Ir ao cinema sozinho


Ir ao cinema é algo socialmente comum. Contudo, e ir ao cinema sozinho? Só de pensar na ideia já dá um certo desânimo e até angústia. Afinal, ir ao cinema é uma interação social e deve ser compartilhada? Não exatamente.  O dia era uma sexta-feira qualquer, andei de moto, entrei no shopping e fui em direção a uma lotérica pagar uma conta que vencia naquele dia. Ao descer em uma rampa uma criança entrou na minha frente e sorriu, deixei o capacete percorrer em minha mão e sorri também.

A lotérica estava fechada. Era 20 e 30.  Em uma placa pendurada à esquerda diz que a mesma fecha às 21. Mas é claro que o povo brasileiro precisa encerrar suas atividades antes que um cliente chegue. O mais engraçado é que esses mesmos cidadãos não entram um segundo antes de seu expediente começar, como se tivesse fazendo um favor ao patrão. Amigos, do jeito que tá a falta de emprego na atualidade, quem está fazendo um favor a vocês são os seus patrões, não o contrário.

Enfim, sai da lotérica cabisbaixo, mas sem reclamar, afinal, não estava afim de perder uma dúzia de palavras com uma adolescente irresponsável. Então subi novamente a rampa e me dirigi à praça de alimentação. Vi no cartaz um filme chamado “Exôdo”. Resolvi assistir e até pensei em escrever um texto para o blog, que nos últimos meses está deixado para as moscas, aliás, quantas pessoas chegaram a esse parágrafo? Você chegou? Parabéns, existe 99,99% de você ser único.

Comprei pipoca e refrigerante e observei que minha carteira não estava assim tão vazia.  Me lembrei da época em que namorava e toda aquela obrigação de sair nos finais de semana. Era difícil o dia que sobrava alguma grana. Agora, solteiro, tenho muito mais tempo e dinheiro, diga-se de passagem. O que é bom, pois consigo dedicar um bom tempo para leituras, não é por acaso que nesse mês de janeiro já devorei 3 livros.

 Agora, imagine um gordinho com um capacete na mão, pipoca e Coca-Cola e muito estabanado.  A frente uma menina do cabelo levemente encaracolado olhou de soslaio, como se sentisse pena da minha figura patética, abriu a porta com a mão direita, enquanto a esquerda segurava um belo celular, pela qual ela deveria estar respondendo algum pervertido de plantão, que talvez estivesse utilizando um papo clichê para leva-la para algum lugar desconhecido e sem graça. Essa mesma menina se encontrava com uma mulher mais velha, possivelmente a sua mãe.

Quando me sentei, me senti o próprio Einstein com experimentos sociais. É claro que não estava fazendo nada de mais. Mas mesmo assim, a ideia de colocar na prática uma experiência antes de escrevê-la é no mínimo excitante. Você deve estar se perguntando o quão podre é minha vida pelo fato de eu estar excitado com o barulho irritante de pipoca em uma sala de cinema em plena Sexta-Feira à noite, quando poderia estar em uma balada ou simplesmente transando com alguém. Pois é, a vida não tem o mesmo sentido para todas as pessoas.

A sala de cinema não era muito grande. Tinha seis luminárias em cada canto, o teto era revestido de um veludo confortável e os bancos eram devidamente ajustáveis com meu 1,85 e mais de 100 quilos. Logo retirei meu tênis e senti o ar gélido entrando em contato com a minha pele. Quando ouvi o barulho de alguém no andar de cima, lembrei do filme “Clube da Luta”, quando Tyler trabalhava em um cinema e de forma marota colocava uma figura de pênis entre os rolos de filmes. Imaginei como deveria ser interessante trabalhar em um trabalho do tipo. Outro trabalho que invejo é o de bibliotecário. Sempre quando pego algum livro na faculdade, vejo aquelas almas em um emprego tão fascinante. E ao invés de devorarem aqueles milhões de páginas quando estão sem nenhum afazer, ficam remexendo em seus malditos celulares. Que tecnologia maldita!

A solidão bate de encontro quando você não tem com quem comentar sobre a demora do filme chegar. Você apenas aprecia a sua pipoca e observa as outras pessoas. A sala de cinema praticamente vazia. Um filme fraco, barulho de pipoca sendo devorada durante os trailers de outros filmes que eu nunca vou assistir. E nesse meio tempo, 15 minutos de atraso. 15 minutos. Nesse tempo é possível acabar com uma guerra ou até mesmo escrever um texto inútil como esse. Em 15 minutos, é possível dar uma rapidinha, mas sem preliminares (se você leva menos de 15 minutos, procure um especialista, tá? Você precisa). Muita coisa se faz em 15 minutos. Mas é aceitável nesse país os inúmeros atrasos e falta de ética de seus cidadãos.

Mas como o objetivo é enfatizar a ida ao cinema. Só posso falar que é normal e nada decepcionante. Em uma vida cheia de pessoas interesseiras, é melhor ir sozinho a um lugar e aproveitar apenas o momento, do que ficar ouvindo baboseiras de uma existência sem sentido. Além de aprender a lidar com a solidão e fortalecendo o seu eu. Isso porque o homem se torna cada vez mais forte quando aprende a se sentir bem sozinho. Ah, e o filme? Ruinzinho.


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