sábado, 27 de julho de 2013

CAPÍTULO 2: NÃO POSSO VIVER SEM SEU AMOR


LIVRO: O MISTÉRIO DO SUICÍDIO DE MARIA

POR REINALDO DEL TREJO



CAPÍTULO 2: NÃO POSSO VIVER SEM SEU AMOR



Certo dia, Lucas ouviu seu relógio despertar ao som de Olhos Vermelhos, música de sua banda preferida que era Capital Inicial, levantou da cama e foi para a cozinha, lá estava sua linda mãe, cerca de 1,70m, olhos castanhos claros marcantes e um sorriso incrivelmente jovial, ela estava lendo o jornal, costume que tinha a todas as manhãs, e de repente ela indagou o jovem:

_Bom dia filho!

_Bom dia mamãe, já está acordada? – respondeu sonolento o garoto.

_Estou sim filho, é que hoje é um dia importante para seu pai e estou preocupada, afinal, não é todo dia que se decide uma Libertadores, não é mesmo? _ comentou a mãe do garoto, com uma voz rouca, de quem havia chorado muito.

_Jura que é só isso mãe?

_Claro filho! Vai se aprontar pra eu te levar no colégio. _ finalizou a mãe.

Lucas ficou desconfiado, mas tomou café sem dizer uma palavra, a feição triste de sua mãe estava lhe preocupando, se levantou, deu um beijo na bochecha dela e subiu para o quarto.

Em seu quarto havia uma bandeira do Chelsea logo na janela, time que ele tinha aprendido a gostar depois que começou a jogar vídeo game, e toda a sua idolatria estava destinada ao número oito, Frank James Lampard Junior, ao lado da bandeira do Chelsea tinha uma foto de seu pai junto com Ronaldinho Gaúcho e Kaká ao disputarem a Copa do Mundo de 2006 pela seleção brasileira.

O jovem estava voado em seus pensamentos, até que ouviu um barulho de algo quebrando, ele correu para o quarto de sua mãe, e ela estava abaixada no chão chorando muito, o garoto chegou perto dela e perguntou o que estava acontecendo, mas ela hesitou em responder algo.

Maria estava com um olhar devaneado, longe de qualquer final de libertadores, tudo aquilo era pretexto, pois ela estava escondendo uma dor muito obscura, pela qual ela deveria manter segredo.

Quando Maria conheceu o pai de Lucas, ela namorava João, que na época era apenas um pedreiro, mas Maria o amava. Porém pelos desejos materialistas que ela tinha na época, acabou se envolvendo com Maicon, que era um promissor talento das categorias de base do Corinthians.

Maria acreditava na época que aquele envolvimento era momentâneo e logo ela poderia ficar por definitivo com João. Mas ela acabou engravidando e foi obrigada a largar de João, e se casou com Maicon, que não sabia que Maria namorava.

Nesses dias, ela tinha recebido uma ligação da mãe de João que acabou falando que ele tinha falecido naquele dia e gostaria que Maria ficasse sabendo. Entretanto, a mãe de João não sabia que Maria ainda gostava de seu filho, e acabou falando aquela informação de forma displicente. Embora tivesse passado mais de nove anos desde a separação dos dois, ela ainda tinha sentimentos por João, e a dor que ela estava sentindo era enorme.

Lucas não sabia dessa história e achou muito estranho sua mãe não lhe falar nada, já que ela desabafava praticamente tudo com ele, mas dessa vez era diferente, sua mãe estava realmente abalada. O menino então resolveu ligar para seu pai que estava em Buenos Aires, em concentração aguardando a final diante do Boca Juniors:

_Bom dia pai! Preciso te falar uma coisa, mamãe está muito estranha, ela chorou muito e está deitada no chão do quarto!

_Nossa filho, deixa eu falar com sua mãe, preciso falar com ela. _respondeu Maicon extremamente assustado.

Lucas passou o telefone para sua mãe, e Maicon já lhe disse:

_Amor, o que aconteceu?

_Não é nada, estou só ansiosa pelo seu jogo. _respondeu Maria abatida.

_Que isso amor? Confia em mim poxa. Você não ficou assim quando disputei a final da Copa do Mundo em 2002, nem a final da Liga dos Campeões em 2005, por que está assim agora? Não omita nada, pelo amor de Deus.

_Estou abalada somente.

_Abalada com o quê?

_Não quero te dizer, é algo do meu passado.

_Passado? Como assim? Me diz amor, confia em mim.

_Não posso, é algo que apenas me pertence. Você não precisa saber disso, aliás, você não tem o direito.

_Ok, depois conversamos. Te amo muito, mas agora eu preciso desligar o celular. E se precisar, me liga, quero conversar com você pessoalmente.

Depois dessa ligação, Maria entrou no banheiro, tomou banho e começou a pensar em sua vida, em como foi ser obrigada a abandonar seu grande amor por causa de seu filho. No começo pensou que Lucas fosse culpado, mas logo em seguida eliminou esse maligno sentimento.

Saiu do banho e chamou Lucas, o menino foi sorridente, pois adorava ir para a escola, apesar de ser excluído dos outros colegas de sala. No carro, Maria não falou nenhuma palavra para o jovem, apenas quando o deixou na porta da escola e disse para ele:

_Você não é uma maldição, é uma dádiva!

O garoto ficou confuso e não entendeu nada, e em seguida foi para sua sala de aula. Sua mãe voltou a desabar em lágrimas, e um “filme” passou em sua cabeça, e passou a lembrar de tudo que passou durante sua vida, desde a época em que conheceu João até os dias atuais.

Logo em seguida, quando chegou em casa, a mulher abatida começou a olhar pela janela, observou o jardim e lembrou de quando João desenhou um coração de tinta guache em uma caneca branca e das rosas que ele sempre levava na hora de seu almoço.

João era um jovem determinado, que havia abandonado a faculdade de Jornalismo para trabalhar para sustentar sua mãe e irmã mais nova, pois seu pai havia falecido. Ele amava a leitura e adorava escrever assim como Maria, seu sorriso era radiante e seus olhos verdes eram sedutores.

Muita coisa começou a passar na cabeça de Maria, uma mescla de nostalgia com culpa, como se ela não pudesse ter feito tal barbaridade com João, sendo que ele era um homem bom e ela o amava. Se bem que Maria começou a desconfiar de seu amor, já que quem ama não sente necessidade de trair.

Porém definir amor é o que menos queria Maria nesse momento, já que seu sangue estava correndo na cabeça como um veado corre de um leão faminto na savana africana. Ela queria apenas chorar e eliminar aquela culpa que estava sentindo por meio da água que saia de seus olhos.

Começou a revirar seus cadernos antigos, até que viu um antigo diário com suas anotações e passou a folheá-lo, viu como seu amor era grande por João e como havia se arrependido de tê-lo traído há quase uma década. Resolveu escrever, desabafando todas suas mágoas, assim como fazia quando era mais jovem, e nessas linhas tênues escreveu:



João, sinto frio sem seu abraço, me sinto seca sem seu beijo, fico sem fôlego ao saber que nunca mais poderei estar ao seu lado.
Penso em morrer ao saber que não poderei mais ver seu lindo sorriso. Morrer, tá ai uma ideia que não seria das piores.
Sei que procrastinei demais ao tentar te encontrar, deixei para depois durante quase uma década, e agora sei que não vou poder respirar o ar que você respira.
Eu queria dizer o quanto te amo e preciso de você. Não queria ter sido tão grossa quanto fui contigo quando terminei com você.
Queria que você soubesse que todas aquelas palavras foram para você me esquecer e poder viver a sua vida, já que o Lucas estava a caminho.
Meu filho é um menino sagrado, uma dádiva. Ele é a única razão de minha vida, eu amo ele tanto.
Escrevo, escrevo e escrevo. Mas no fundo, sei que você nunca vai ficar sabendo do meu verdadeiro amor.



Maria nunca havia escrito palavras tão doloridas e rancorosas, e no fundo ela sabia que era tudo verdade, pois a traição tinha sido algo nojento tanto para João quanto para Maicon que nunca soube de nada.

Logo em seguida ela adormeceu, sonhou com um casamento que nunca aconteceu. No sonho ela se casava com João e tinha um lindo filho, que era Lucas, mas ela sabia que esse sonho era impossível, já que Lucas era filho de Maicon.

De repente, ela foi acordada pelo tocar de seu celular, era Lucas pedindo para que ela o buscasse na escola, ela o buscou, viu como seu filho estava sendo carinhoso com ela e passou a abandonar a ideia de suicídio a cada minuto passado.

O tempo estava passando rápido, Maria ficou abraçada com Lucas até que chegou a hora do jogo, ambos vestiram a camisa do Grêmio e foram para o sofá assistir a final da Libertadores da América.

Maicon estava com muita vontade em campo, acabou fazendo dois belos gols, o que fez com que o Grêmio conquistasse o tricampeonato da Libertadores e fosse considerado o melhor time do continente.

Em um dos gols ele beijou a aliança e no outro ele tirou a camisa e em uma outra camiseta estava escrito: “Maria, eu te amo”!. Lucas vibrou com aquele belo gol de três dedos, mas Maria ficou estática, não teve reação. Lucas achou a falta de reação da mãe estranha, todavia, acabou concluindo que era emoção.

Embora estivesse satisfeita com o sucesso profissional do marido e com a bela atuação dele, Maria não conseguia ficar feliz sabendo que nesse mundo João não existia mais, depois do jogo deu um beijo em Lucas e foi para a cama.

No quarto, Maria começou a ouvir Nickelback, uma banda canadense que era a preferida de João, em uma de suas músicas famosas, a Never Gonna Be Alone, a letra dizia: “ O tempo está passando muito mais rápido do que eu, e estou começando a me arrepender de não passa-lo com você”.

Esse foi um balde de água fria em Maria que já estava cabisbaixa, e no caso dela o tempo passou demais e agora era impossível passar algum tempo com João, o seu amado.

De repente, seu telefone tocou, era Maicon e enfático ele disse:

_Maria meu amor! Somos campeões da Libertadores! Eu te amo, não sei o que faria sem você! Eu preciso de você pra viver, sem seu amor, eu acho que morreria...

Maria desligou o telefone e começou a pensar nas palavras de seu marido, “ Sem seu amor, eu acho que morreria”, “Eu morreria”. Morte, de novo a morte vinha em seus pensamentos, e dessa vez de forma mais branda, clara, Maria não podia viver sem João, e acabou descobrindo que tinha apenas sobrevivido e não vivido.

A palavra viver se confunde com sobreviver. Muitas vezes, achamos que estamos vivendo, mas no fundo estamos apenas sobrevivendo. Sobreviver é seguir a vida e deixar a maré nos levar. Já viver é lutar por nossos sonhos e sentimentos, fazendo a vida realmente valer a pena.

Maria tinha cansado de sobreviver e estava disposta a colocar um fim em tudo aquilo, entrou depressa no quarto de seu amado filho e disse:

_Meu filho, meu amor. Eu vou sair, mas quero que saiba que eu te amo muito, e aconteça o que acontecer, sempre estarei olhando por você.

Os olhos de Lucas ficaram profundos, como se ele estivesse prevendo algo terrível, ele começou a chorar, abraçou a mãe e disse:

_Mamãe, por favor, não vá.

_Eu preciso meu filho, eu preciso. _ disse secamente a mãe.

Maria soltou o filho e foi pegar seu carro, andou pelo centro de Porto Alegre, viu prostituição, jovens se embriagando e muita gente com a bandeira do Grêmio, em uma bandeira viu a imagem de Maicon, escrito a seguinte frase: “Nosso Salvador”.

Salvador... Foi essa a ideia de Maria cerca de nove anos atrás, ela achou que Maicon fosse seu salvador, mas de caprichos, como se a vida fosse somente capitalista. Maria chorou novamente e foi em direção a Avenida mais movimentada da cidade.

Estacionou o carro em uma rua paralela, subiu uma passarela, respirou aquele ar gélido do inverno gaúcho e disse a seguinte frase:

_Não posso viver sem meu amor.

Se jogou na Avenida Alberto Bins e foi atropelada por um caminhão de entrega de gás, a morte foi instantânea, porém a dor de Lucas e Maicon não. Maria foi covarde ao se matar, pois não teve coragem de enfrentar aquilo que ela construiu.

Se matar é o passo mais curto para qualquer que seja o impasse, porém é o passo mais covarde e asqueroso. Já que a vida está ai para ser desafiada e não tem espaço para desistências.

Um local amarelado e avermelhado tomava conta do semblante de Maria, ela não sabia onde estava, tampouco como foi parar naquele local, até que viu um rosto conhecido, era João ao distante, ele deu um breve sorriso e Maria correu para seus braços.

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