terça-feira, 26 de março de 2013

Aproveite a vida, disse José Carlos

A vida é muito curta para ser desperdiçada com maus pensamentos, magoas, ressentimentos e tristezas desnecessárias. Quando menos percebemos, podemos estar com setenta anos, em um lar de idosos, sendo tratados por desconhecidos, sem a presença de um pai, mãe ou até mesmo filhos.

No dia 16 de março de 2013, várias turmas de calouros da Unoeste ( Universidade do Oeste Paulista ) visitaram o lar de idosos São Rafael, localizado na cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo.

A visita foi repleta de valores sendo passados dos experientes senhores que lá estavam localizados, mesclando um ar de felicidade em expressar suas vivencias com melancolia por estarem afastados dos seus entes queridos.

Julgar as pessoas que os deixaram seria uma grande hipocrisia, já que cada caso tem sua particularidade. Mas que deixa um gosto amargo na boca em ver pessoas experientes longe de suas antigas casas, isso deixa.

Dentro desse contexto, conheci José Carlos Guedes, setenta anos, ex professor de Educação Física, ou como ele me corrigiu, um atual professor. Natural de Presidente Bernardes, José Carlos se formou na Unesp de São Carlos e desempenhou sua função de magistério nas cidades entorno de Presidente Prudente.

José Carlos foi deixado no asilo por seu irmão, por causa dos vícios em bebidas alcoólicas e na jogatina. Segundo ele, faz cerca de um ano que ele está naquele local, o que para ele é uma prisão, onde não pode ter contato com seu esporte favorito, o futebol, tão pouco com as mulheres, que aqueciam seu corpo quando o mesmo era jovem.

Em sua vida fervorosa, ele disse ter visitado cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Cabo Frio e até Miami ( Estados Unidos ). Fiquei maravilhado com sua experiência de vida, até que no decorrer da conversa ele disse um fato que me deixou abismado. José Carlos Guedes estava no Maracanã no dia 19 de novembro de 1969.

Essa data pode não significar nada para muitas pessoas. Todavia, é uma data importantíssima para o futebol mundial. Foi nesse dia que nosso canarinho Edison Arantes do Nascimento, o Pelé, marcou seu milésimo gol vestindo a camisa do Santos no Coliseu do esporte, o glorioso Maracanã.

Cerca de duzentas mil pessoas tiveram o privilégio de ver esse fato histórico, e lá estava nosso querido José Carlos, fiquei impressionado que em um sábado qualquer eu poderia ter contato direto com um representante da história do futebol. Seus olhos brilharam ao dizer que entrou no “Maraca” ao lado de sua namorada momentânea Ângela, que morava na Tijuca. Brincou ao dizer que ela não sabia de que time o juiz pertencia, e sorriu ao ver que tanto eu, quanto alguns colegas de sala estavam impressionados com tamanha experiência.

Mas não é só de rosas que é feito o passado do senhor José Carlos. Quando lhe perguntei sobre seus filhos, seus olhos encheram de lágrimas e ele resolveu mudar de assunto. Depois ele resolveu contar que teve dois, mas ambos morreram. O senhor de setenta anos nunca foi casado, o que dá a entender que ambos deveriam ser de suas antigas namoradas, pelo qual ele não destacou nenhuma em especial.

O assunto aos poucos foi se dissipando, até que o vivo José mostrou toda sua experiência ao dar conselhos aos jovens que estavam ao seu redor: “Aproveite a vida e nunca se arrependa de nada”. Em seguida, o enfermeiro pediu para que levássemos José Carlos para lanchar, e estava feito um contato entre gerações. Um experiente homem me passando valores e histórias vividas. Que bela tarde de sábado, cheia de vida e conhecimento adquirido.

A visita ao lar São Rafael foi repleta de sentimentos. Um ar de quero mais por existirem inúmeros “velhinhos” dispostos a passarem valores aos jovens. Mas também tem o lado triste da história, em ver que apesar de supostamente estarem sendo bem tratados, eles estão longe de suas verdadeiras vidas.

A vida é como um rio, repleta de passagens e momentos. Um dia, estamos em busca de nossos sonhos e objetivos, e no outro podemos estar no final dela. Tudo passa nesse passar de tempo, menos nossos valores, caráter e é claro, nossa história. Sem arrependimentos e aproveitando a mesma da melhor forma o possível. Aprendi isso com o tal do José Carlos Guedes.



2 comentários:

B. disse...

Bela história! É legal ter essa convivência com outras gerações, é assim que aprendemos, que ganhamos lições. Gostei bastante da sua iniciativa e do post, Del Trejo.

Jéssica Simões disse...

Que bela experiência!
Sempre acho que devemos parar e ouvir os mais velhos. Não existe vida desinteressante e por isso, eles tem sempre alguma coisa para nos ensinar.
Ta aí uma coisa que gostaria de fazer: visitar um asilo.