terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sou um cachorro perseguindo carros

Você já assistiu “Batman, o cavaleiro das trevas”? Se a resposta é sim, provavelmente você se lembra da frase do Coringa, que foi interpretado de forma primordial por Heath Ledger, que infelizmente veio a óbito alguns meses depois, prematuramente aos 27 anos. A frase dizia: “Sou um cachorro perseguindo carros. Eu não saberia o que fazer se alcançasse um.”

Depois da primeira vez que assisti ao filme, isso no começo de 2009, não tinha prestado muito atenção nessa frase, até que outro dia estava conversando com um amigo meu e passei a refletir, e consegui interpretar esse imponente jogo de palavras.

“Sou um cachorro perseguindo carros”. Nesse trecho, os carros podem ser qualquer coisa que eu ou você queremos tanto. Por exemplo, uma pessoa solitária procura a presença de amigos, já alguém triste procura um amor, assim como um jovem busca seu sonho, e assim por diante.

A nossa vida é feita de objetivos, a cada dia que acordamos queremos fazer esse novo passar de datas valer a pena, infelizmente, muitas vezes esses dias não passam de acontecimentos monótonos e sem sentido, sem vibração.

A vida é totalmente diferente do que disseram que ela ia ser, não temos espadas, não temos guerras, não temos amores duradouros, a única coisa que temos é uma vidinha pífia, onde o nosso maior objetivo é nos mantermos vivos.

“Nasce, cresce, reproduz e morre”, era assim que minha professora de Biologia da quinta série falava como era o ciclo vital, pobre mulher ingênua, esqueceu do “ganhar dinheiro”, eu creio que contemporaneamente o ciclo vital viria a ser: “Nasce, cresce, ganha dinheiro, reproduz e morre”. E fim, a vida acabou, já era, já foi. É triste falar dessa maneira, e acabar com o conto de fadas que existe dentro do coraçãozinho ingênuo dentro de cada ser humano.

E o amor? E a amizade? Bom, agora a conversa fica um pouco mais complexa. Todavia, o ser humano é feito a partir de problemas, muitas vezes não sabemos como nos portar diante da prosperidade, procuramos e achamos os problemas. Ninguém consegue seguir a filosofia de “Ser um idiota” que Ailin Aleixo escreveu certa vez, ninguém consegue aproveitar a brisa do vento, queremos porque queremos algo para sancionar, porque nessa ideia mundana de salvador da pátria, acabamos nos confortando em sermos solucionadores de impasses.

Acha que isso é pura ladainha? Então me diga o porque de você estar apaixonado pela pessoa que nunca quis nada com você? Ou no máximo quis te estacionar na Friedzone, você é o que? Masoquista? Me diz porque não dar valor em quem te dá valor? Eu te respondo meu caro, queremos ampliar nossos horizontes, queremos o intangível, ou melhor, o dificil.

Quando Bob Kane criou um vilão sarcástico e maluco para confrontar o Batman, talvez ele não tinha ideia de que esse “lunático” poderia interpretar uma frase tão verdadeira, porque no fim, todos temos um pouco de Coringa, todos queremos ver o “Circo pegar Fogo”, e além disso, todos ficamos sem reação quando alcançamos o carro, sonho, objetivo, amor, ou seja o que for.

Meu nome é Totó, sou um cachorro vira-latas, corri a vida inteira atrás de um Gol geração 3, sempre achei ele lindo, até que certa vez o carro estava devagar e ele parou, e então consegui alcançar o meu objetivo, quando vi aquele meu “sonho” parado na minha frente, fiquei feliz e satisfeito, até que me bateu um sentimento esquisito, como se eu não soubesse o que fazer, e então eu me sentei.

Parei, olhei, resolvi urinar no pneu para mostrar que aquele golzinho era meu, mas não tinha nada de especial naquilo. E do nada me veio uma bela ideia, resolvi morder o para choque, porque eu queria muito saborear o meu “sonho”.

Os dias passaram, aquele carro não saia dali, tão pouco eu, já que era a minha conquista, e eu não a deixaria de maneira alguma. Fiquei triste porque não tinha mais nenhum objetivo em mente, estava vazio, sem uma resposta para a vida.

Até que no final da rua, lá estava o “salvador da pátria”, um carro reluzente, lindo, prata, era um Santana e passou a milhão, fiquei feliz e disposto a chegar naquele Santana, e fazer ele ser o meu carro.

E quando eu o alcançar? Bem, ai eu não sei, já que enjoei de comer o para choque do Gol, agora eu quero algo novo para me renovar.

Porque eu sou assim, e você também é, com toda a certeza. Não sabemos o que fazer quando alcançamos o “carro”.


Um comentário:

B. disse...

É bem isso, meu caro Del Trejo. Acho que você matou a charada, haha. Há um tempo, eu também descobri esta realidade, ou melhor, quis enxergá-la. E ainda percebi que isso faz parte da vida de todos nós, sem exceção. Nós nos tornamos assim.