quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O começo da vida

Giovana tinha 23 anos, era linda, inteligente, perspicaz, imponente, advogada em um grande centro jurídico, na grande empresa “Jules Rivert”, localizada no centro de Curitiba, capital do Paraná.

Desde seus quinze anos, a jovem sempre procurou um amor, uma paixão, uma sensação pela qual ela nunca havia passado. O tempo passou, o seu descontentamento virou uma grande pressão para ela se tornar uma profissional excelente, estudou como ninguém, e passou em primeiro na faculdade federal do Paraná.

Durante os cinco anos de curso, foi sempre a melhor aluna da sala, sempre critica, viva, ela gostava daquele curso com unhas e dentes. Saia da sala, corria para a biblioteca para analisar cada nova lei jurídica, para tentar desenhar nas falhas constitucionais.

O tempo passou rápido na faculdade, em cinco anos, Giovana havia devorado mais de 70 obras jurídicas, fora os seus romances que era de praxe. Mas no dia da formatura, o seu orador emplacou uma frase que a deixou desconcertada:

_O prêmio de melhor aluno vai para Giovana de Grigue, a aluna mais incrível que conheci, ela vive as leis judiciais, ela respira Direito, nada mais do que isso.

Os olhos da jovem gelaram, ela se levantou e sem sorrir pegou o prêmio, observou de soslaio o diretor da faculdade, João Almeida, considerado por muitos o maior advogado do país. Olhou nos olhos do orador e agradeceu, mas seu coração estava apertado, cheio de dúvidas.

Será que ela só vivia direito? Quem seria Giovana? Por que ela tinha se perdido nos últimos anos?

Seu coração estava gelado, viu seus pais sentados orgulhosos cerca de dezessete metros do palco, sua pressão caiu, ela estava desesperada precisando de consolo. Não conhecia metade da sala, apenas a si mesmo e poucos alunos, nos trabalhos em grupo que tinha feito durante as aulas sociais.

Não sabia mais quem era, não tinha namorado ninguém em sua vida e agora se via formada, sem ter vivido, sem ter sentido o frio nas entranhas, sem sentir ciúmes, possessão, sem ter sentido absolutamente nada.

O final da noite foi tão obscuro para ela, que ela sequer se lembrava do decorrer da formatura. Se limitou a deitar em seu quarto e desabar em choro. Não tinha aproveitado a adolescência, não tinha dado “porre”, não tinha dado show, não tinha passado sequer pela indigesta primeira vez, não sentira uma barba de um homem serrar o seu queixo, não entendera como seria sentir o calor humano em uma noite fria sulista.

Quando menos viu, estava na mais respeitada agência jurídica do país, tinha ganhado em um ano, 12 causas, todas justas, honrosas, era uma excelente advogada, era digna. Mas mesmo assim era fria, sem emoção.

Desenhava nas leis, fazia o correto acontecer, só que mesmo sendo uma pessoa boa, ela estava sem vida, sem nada.

Até que uma terça-feira, depois de um dia cheio de petições e inquéritos, ela saiu a pé do escritório, deixou seu Ford Ka que acabara de ganhar da empresa na garagem, tirou o casaco e o jogou na rua, andou sem um rumo, até que leu em uma vitrine “Sebo Lago do Sol”, achou o nome interessante e entrou naquela loja rudimentar.

Um livro empilhado sobre o outro, não tinha ninguém na loja, até que começou a ver edições de 1985 de Star Wars, se sentou em uma mesa e começou a ler, estava admirando a escrita, do lado da mesa tinha um caderno de desenho e um lápis, o pegou e começou a desenhar, era uma mulher sentada em um banco.

O desenho era bem feito, só que ela não conseguira desenhar o rosto da mulher, não por falta de técnica e sim falta de coragem, até que um rosto agradável entrou na sala em que Giovana estava, um cara alto, cerca de 1,87m, um pouco desajeitado, barba por fazer e um olhar verde forte, ele sorriu e falou suavemente:

_Moça, a loja já fechou faz umas duas horas...

Antes de terminar a frase, o jovem chegou mais perto, sentou do outro lado da mesa e observou o desenho da moça, ele sorriu e perguntou:

_Posso acabar pra você?

_Claro, fique a vontade._respondeu a garota meio tímida.

Ele pegou o desenho, olhou fixamente para Giovana, seus olhos estavam fixos em sua pele branca, seu olhar castanho, sua sobrancelha envergonhada, seus lindos cabelos ruivos. Deu algumas passadas de lápis e mostrou o desenho para ela.

O rosto da moça no desenho estava sorrindo, e ele tinha desenhado um celular na mão dela, até que curiosa, ela quis saber o que era, ele simplesmente emplacou:

_Essa é você feliz esperando uma mensagem minha, depois de nosso primeiro encontro nessa Terça-Feira...

A moça corou e sorriu timidamente, seu coração disparou, se levantou e o fitou, ela estava pronta, até que o jovem se aproximou, deixou seus lábios a um dedo dos de Giovana, e o resto, bom, o resto eu deixo para a imaginação de vocês, meus caros leitores.

Só posso dizer que Giovana foi feliz, muito feliz, para sempre eu não sei, mas ela passou a dar valor nas pequenas coisas.


2 comentários:

B. disse...

Ótimo conto, Del Trejo. Gostei da parte do celular, é uma cantada diferente, haha
Acho que nem toda a felicidade do mundo está apenas no trabalho ou na realização profissional. Não digo necessariamente um amor, mas talvez amizades, pessoas que te amam ao seu redor e esse tipo de coisa. Eu passei um ano assim e de fato, faltava algo, pois eu me afastei daqueles que me faziam bem, por conta do estudo. Esses dias estava em uma aula de Filosofia e a professora disse, 'O homem não vive sem o outro'. E eu fui parar pra pensar e percebi que ela estava certa. Fomos criados para conviver com o outro, para ter emoções, relações. Se não o fazemos, sentimos um vazio imenso que perdura e nos torna frios.

reinaldo del trejo disse...

Bia: Diferente nada, bem ruim kkkkkkkkkkkkkkkkk...
Suas palavras são verdadeiras, e é total verdade, precisamos de uma presença..
Seja amizade, amor, familia, seja o que for.
Precisamos de uma presença humana, para desabafarmos, sentirmos uma presença...