terça-feira, 17 de abril de 2012

Maria Clare


Um dia uma menina de quinze anos se jogou da cobertura do Amina Palace, edifício de luxo da cidade de São Petersburgo na Rússia.
Ela cursava o ensino médio, era linda, loira, olhos claros, vida ativa, esportista, dançava, tinha vários amigos, não sei dizer se verdadeiros ou não, mas essa felicidade aparentava em seu sorriso radiante.
Preferiu se jogar, perder a vida do que continuar a desafiar cada raiar do dia, porque seu solitário coração não aguentaria o que o destino estava lhe reservando.
Quais seriam os desafios dessa menina?
O que ela tinha de tão obscuro que faria com que ela tirasse a sua própria vida?
Pensava nesse caso, até que me lembro, que semana passada, eu acordei na madrugada, eventos esses difíceis de serem encontrados em meus dias nebulosos, nem dormir mais eu durmo direito, enfim, me levantei, sai de minha cama, tropecei em meus livros, em que passei horas mal estudadas para reinar no fracasso em duas provas consecutivas que tiraram qualquer motivação.
Ascendi a luz do corredor, andei até o quarto dos meus pais, e olhei os dois dormindo, radiantes, tão calmos, tão paternos, tão lindos.
Lembro da época em que eu sempre perambulava a noite, andava descalço e acordava na varanda ou na garagem, pelo sonambulismo que me assombra desde sempre, mas depois de acordar, ficava com muito medo mesmo, e pedia para dormir entre eles, pois esse foi um dos maiores terrores da minha infância, eu tinha medo de um dia acordar em um lugar longe, longe o suficiente de não poder voltar mais pra casa...
Mas quando estava com meus pais, eu sentia uma segurança, e meu medo de ir embora era parado por uma simples presença fraternal.
Segurança essa que a pobre Maria Clare nunca pode desfrutar.
A menina que eu comecei a citar no começo do texto era popular, educada, inteligente, o sonho de qualquer pai, de qualquer mãe, de qualquer família.
Filha única, Maria Clare morava com a mãe, pois seu pai tinha falecido há anos, a menina sequer se lembrava do semblante do mesmo.
Sua mãe amava muito seu ex-marido, de tal maneira que nunca mais conseguiu se envolver com outro homem.
A juventude de Maria foi complicada, por não ter uma presença paterna e até certa desestabilidade em relação a sua mãe, mas mesmo assim, as duas se davam super bem...
Maria nunca disse o que realmente sentia por sua mãe, sendo que apesar dos pesares, as duas se entendiam de uma forma difícil de ser exposta, mas eu posso dizer, como um tonto meloso que isso era sim, amor.
Até que uma tarde de segunda-feira, sua mãe havia saído de casa, e deixou um bilhete “Filha, tive que viajar por causa da empresa, volto amanhã. Te amo muito”.
Maria leu aquilo e achou muito estranho, já que nunca na vida inteira sua mãe tinha lhe dito que a amava, talvez por medo de falar aquilo e um dia perder, dor essa que deve ser a coisa mais horrível de todo esse mundo, logo ela ligou para a mãe, era cerca de duas da tarde. Não havia aula naquele dia por causa da nevasca que atacava todo o norte da Rússia.
A menina disse ao telefone:
_Oi mãe, como você está?
A mãe respondeu:
_To bem minha filha, desculpe sair sem falar nada contigo, é que recebi uma ligação do meu chefe, e tive que vir correndo, estou na estrada...
Maria Clare perguntou:
_Mãe, sabe, aquele bilhete que você escreveu, você sente tudo o que disse?
_Sim minha filha, eu sinto..._respondeu a mãe de forma quase instantânea.
A jovem caiu em lágrimas, começou a gaguejar, mas sem soltar nenhuma palavra, até que continuou a insistir com a mãe:
_Mamãe, você pode dizer isso pra mim?
_Claro minha filha, é o que eu realmente sinto por você, nunca consegui dizer, mas o tempo passou, está na hora de eu começar a soltar meus sentimentos novamente, afinal, não podemos reprimir o que sentimos...
Minha filha, eu te... _ a ligação caiu, a menina caiu em lágrimas, estava extremamente emocionada, e resolveu ligar novamente, o telefone só dava caixa postal, então ela pensou que a linha estava fora de sinal e resolveu ir assistir algum filme.
Até que para o final da tarde, Maria Clare sentiu um enorme aperto no coração e resolveu ligar para sua mãe, a ligação nunca era completada.
Alguns minutos depois o telefone do apartamento tocou, a garota atendeu o telefone, e a voz do chefe de sua mãe disse de forma trêmula:
_Maria, eu, eu, eu tenho que falar que sua mãe sofreu um acidente...
_O que?! O que aconteceu?! Onde está minha mãe?! Responda! _ Caindo em lágrimas a jovem gritava e persistia em tais perguntas.
_Infelizmente, ela faleceu...Estou indo para sua casa, ficarei com você e entraremos em contato com seu primo que está na Austrália... _ O chefe da mãe de Maria disse de forma firme, agora ele parecia mais calmo. O primo Jordan era o único parente vivo da jovem Maria.
Maria Clare desligou o telefone, ficou alguns minutos sentada em sua cama, até que levantou-se, de pijama saiu de seu apartamento, se dirigiu até o elevador, apertou o botão do último andar até que chegou na cobertura, era um tipo de praça em cima do prédio, continha alguns bancos e mesas, um aspecto bem medieval que era coberto pela esbranquiçada neve, era lindo...
A nevoa batia no rosto pálido da jovem, descalça ela andou até a proteção do prédio, respirou fundo, se levantou ficando de forma inclinada, vindo o semblante de sua mãe em seus pensamentos, uma lágrima caiu, descendo rapidamente todos os trinta e três andares do glorioso Amina Palace, ela se inclinou e antes de pular, gritou:
_Eu te amo Mamãe!

Bom, escrevi esse texto levando em consideração a música do Legião Urbana, que diz que:

“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.”

Pensando nesse trecho, só posso declarar que temos que expressar todo o amor que sentimos pelas pessoas.
Porque o amanhã, bom, o amanhã não nos pertence.
Vou escrever algo a respeito mais detalhado, mas acho que esse texto já ficou grande demais.
Enfim.
Grande Abraço.

2 comentários:

Garota Mania disse...

o.o adorei o texto apesar de ser trágico me emocionou muito. de que adianta todas as coisa do mundo se não se tem amor? bjs bjs http://virersemlimites.blogspot.com.br/

B. disse...

Eu sou suspeita pra falar, pois adoro os seus textos, mas esse me fez lembrar os primeiros vestígios seus, que eu encontrei. Lembro quando me deparei com suas palavras e comecei a seguir o blog. Percebi uma diferença em ti e comecei a pensar que vc sim, fazia da sua vida valer a pena, que vc sabia dar valor as pessoas e é isso que essa história me passa. É bom te ver assim novamente, bom te ver 'recuperado'.